Editora Coerência » Arquivos » Arquivos do Mal 
  • Autor: Soraya e Glau Kemp
  • Edição: 1
  • Ano: 2017
  • Gênero: Terror
  • Páginas: 375
  • Idioma:
  • Arquivos do Mal

    Sinopse

    Meu nome é Marcus Barcelos, sou escritor de histórias de terror e quero conversar com você. Sim, eu quero conversar com você sobre o medo…

    Tenho o costume de escrever sempre à noite, quando as minhas ideias parecem finalmente encontrar os seus lugares na arquibancada da minha mente e esperam pacientemente o show começar. Em geral, elas passam toda a extensão do dia correndo de um lado para o outro, acotovelando umas às outras na fila, sumindo, retornando, tentando chamar a minha atenção de qualquer jeito e quase me fazendo atravessar a rua sem olhar para os lados. Mas, como não estou muito a fim de ser atropelado, entrei num acordo com elas. E elas sabem que têm de esperar até a noite. Até a hora mais escura da noite, às vezes.

    Então, é madrugada enquanto escrevo isso. E é justamente na madrugada que eu quero conversar com você sobre o medo. Sobre chegar ao âmago da insanidade… E talvez, muito talvez, cruzar a fronteira. Lá fora faz um tempo agradável, com um vento nem quente, nem frio. Mas ele está soprando e, quando sopra da maneira correta, entra uivando pela fresta da janela que eu já deveria ter consertado há meses. Mas o barulho não é muito alto, então não precisamos elevar a voz nem gritar. Podemos conversar racionalmente, você e eu, sobre o modo como, sem qualquer aviso, a realidade pode se rasgar diante dos nossos olhos.

    À noite, quando vou me deitar para dormir, ainda tenho o hábito de me certificar de que minhas pernas estejam debaixo das cobertas quando as luzes se apagam. Não sou mais criança, é verdade, no momento que escrevo este prefácio já estou com quase trinta anos, mas… não gosto de dormir com uma perna para fora das cobertas. Porque se uma mão fria sair debaixo da cama e agarrar meu tornozelo, sou capaz de gritar. Sim, talvez eu grite a ponto de acordar os vizinhos. Mas esse tipo de coisa não acontece, sabemos disso…

    Nas histórias que se seguem nesta antologia, ARQUIVOS DO MAL, da Editora Coerência, você vai encontrar todo tipo de medo: vampiros, assassinos em série, fantasmas, demônios. Todo tipo de horrores diversos. Nenhum deles é real. Eu sei disso, é claro. Mas também sei que se eu tomar cuidado e ficar sempre com as pernas debaixo da coberta, a mão fria jamais vai conseguir agarrar meu tornozelo…

    É por isso que quis ter essa conversa com você, leitor, antes que você entre de cabeça nos medos que se escondem pelos mais variados cantos de São Paulo. Nas próximas páginas, não há lugar seguro. A realidade das avenidas aparentemente inocentes da cidade se rasgam frase após frase. E, por mais que você saiba que elas não existem (da mesma forma que eu sei que nenhuma mão irá agarrar meu tornozelo, mas continuo deixando-o seguro embaixo das cobertas), você irá sentir medo. E, estranhamente, ou não, se você for como eu, gostará disso.

    De quantas coisas temos medo? Temos medo de desligar a luz quando nossas mãos estão molhadas. Temos medo de enfiar uma faca na torradeira para tirar a fatia de pão que ficou presa lá dentro sem desligá-la primeiro da tomada. Temos medo do que o médico pode nos dizer quando o resultado do exame chegar; quando o avião de repente dá uma sacudida em pleno voo. Temos medo de que a água potável acabe, de que a vida saudável se acabe. Quando a sua filha ou filho prometeu chegar às onze e já é meia-noite e quinze e a chuva fustiga a janela como areia seca, nós nos sentamos e fingimos assistir a algum filme, olhamos ocasionalmente para o celular inerte e sentimos a emoção que nos torna cegos, a emoção que deixa em ruínas o processo do pensamento.

    O medo é o que nos deixa cegos. E tocamos cada medo com a ávida curiosidade do interesse próprio, tentando construir um todo a partir de uma centena de partes. Sentimos a forma. As crianças percebem depressa, esquecem e reaprendem quando se tornam adultas. A forma está ali, e a maioria de nós se dá conta do que se trata mais cedo ou mais tarde: é a forma de um corpo debaixo de um lençol. Todos os nossos medos reunidos constituem um grande medo, todos os nossos medos são parte desse grande medo — um braço, uma perna, um dedo, uma orelha. Temos medo do corpo debaixo do lençol. Temos medo de que seja o nosso corpo. E o grande atrativo da ficção de terror ao longo das épocas é que ela serve de ensaio para a nossa própria morte.

    Todas as histórias da ARQUIVOS DO MAL foram escritas com maestria. Todos os autores souberam colocar, cada um a seu modo, medo puro e genuíno em cada palavra. E isso é louvável. Não sou de São Paulo, moro no Rio de Janeiro, mas senti, em cada conto, como se tivesse sido transportado para lá. Para mim, que também sou escritor de terror, esse é o nosso grande trunfo. Pegamos vocês, leitores, pelas mãos, para um passeio por algum lugar sombrio (como, por exemplo, A Casa da Dona Yayá, em uma São Paulo de 1930), os levamos até a metade do caminho e, quando vocês menos esperam, desaparecemos. E aí é com vocês. O que você encontrará no caminho? Sente esse arrepio que percorreu sua espinha? Exatamente.

    É claro que os temas da morte e do medo não são território exclusivo do escritor de terror. Vários dos escritores chamados “tradicionalistas” lidaram com esses temas, e de uma variedade de formas diferentes — desde “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoievski, a “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”, de Edward Albee, por exemplo. O medo sempre foi um tema importante. A morte sempre foi um tema importante. São duas constantes do ser humano. Mas apenas o escritor de terror e do sobrenatural dá ao leitor uma oportunidade para total identificação e catarse.

    Por exemplo, se colocarmos eu e Vinícius Grossos (escritor de young-adult e grande amigo) de frente para um lago, talvez possamos ter, ao mesmo tempo, uma súbita inspiração e a vontade de expressá-la em palavras. A história dele talvez fale sobre um casal adolescente que se conheceu às margens daquele mesmo lago e viveu as inconstantes do amor, enquanto a minha, muito provavelmente, fale sobre algum ser demoníaco que surge das suas profundezas para erradicar a raça humana. Somos diferentes? Não, ambos somos escritores. Apenas enxergamos diferente.

    Então nos perguntam: mas por que vocês escrevem sobre isso? Ao que, geralmente, respondemos: e nós temos escolha? Escrever é como uma ocupação improvisada. Todos nós parecemos vir equipados com filtros em nossas mentes, e todos os filtros têm tamanhos e tramas diferentes. O que fica preso no meu filtro, por exemplo, pode passar pelo do Vinícius. O que fica preso no dele, talvez passe sem problemas pelo meu. O resíduo que fica preso na tela do nosso filtro mental, enquanto escritores de terror, é a substância do medo. Nossa obsessão é pelo macabro. E foi justamente isso que transformou esta antologia em algo tão magnífico: o nosso fascínio pelo medo. E eu não poderia estar mais feliz em fazer parte disso tudo.

    Por isso, caro leitor, antes que nossa conversa chegue ao fim, faço um convite: o que acha de se juntar a nós, nas histórias a seguir, e descobrir uma São Paulo que você nunca imaginou que existisse? Aqui, onde me encontro agora, faz uma madrugada agradável e o uivado (que eu não acredito que seja só do vento) ainda entra pela minha janela. O que queremos lhe mostrar está ali, num lugar escuro não muito longe — na verdade, está logo na próxima página. Está com medo? Ótimo.

    Vamos?

    Marcus Barcelos.

     

    Glau Kemp
    Reside na praia de Itaipuaçu em Maricá- RJ, com seus cães e livros. Graduanda de medicina veterinária, gosta de estar em meio a natureza e animais. Publica de forma independente seus contos e romances na Amazon, além de participar de diversas antologias em diferentes editoras. Já flertou com vários gêneros, mas seu trabalho está mais concentrado no suspense e terror, incluindo a criação e adaptação de contos e romances para roteiro de quadrinhos. Autora por necessidade da alma é fascinada por mundos fantásticos e a natureza humana