Edelweis Ritt ajuda você na escolha dos nomes dos seus personagens
Joana, Jessica ou Kyley? Nomes de personagens podem parecer num primeiro momento uma escolha simples. Não é. Nomes têm significados e valores temporais. Por exemplo, não consigo imaginar uma personagem de 1930 chamada Jéssica, um nome. Foi top da lista americana entre o ano de 1981 e 1998, saindo da lista dos top 20 em 2004. Devo por isso colocá-lo em uma história atual? Posso. Dependendo do meu objetivo.
Quero uma história de alguém dentro da massa? Os pais da minha Jéssica são uma família comum que teve bebê entre 1981 e 1998, então considero que fica perfeito. Existem vários sites na internet com informações sobre os nomes mais usados em determinados anos.
Mas meu nome é Edelweis e nasci em 1967. Quem colocava um nome desses em uma menina nos anos 1960? Aí entra o papel da minha mãe, que gostava de inovar, queria coisas diferentes, adorava ser única.
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Na dúvida, nada melhor que uma frase sobre isso em algum lugar do livro (preferencialmente não no início). Suponha que eu seja o personagem de 1967 batizada com esse nome de flor, difícil de escrever e de pronunciar. Como eu explicaria:
O que se espera de uma mãe que imitava a pinta que Marilyn Monroe tinha sobre o lábio superior? Alguém que segue o lema de “sempre imitada, mas nunca igualada” que acaba tendo uma filha que nasce com essa pinta. Brincadeira do destino! Poderia ter me chamado Marilyn, mas ela achou clichê e escolheu o nome de uma florzinha que ouvia da amiga alemã. Meu pai não gostou. É fácil entender que ela tinha mais poder.
Um parágrafo desses já posiciona o contexto do nome e a partir daí passa a fazer sentido. Eu sou da opinião de que qualquer nome pode ser usado se ficar coerente. Portanto, ao escolher os nomes dos seus personagens, busque pela coerência, mesmo que ela seja intrínseca ao conteúdo.
Você quer escrever cenas hots, mas está encontrando dificuldades pra deixar do jeitinho que você vê por aí no mercado tradicional? Karla Gonçalves dá dicas para um hot elegante
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Não é mistério que nos dias de hoje a cultura de entretenimento está acolhendo temáticas mais picantes, seja em filmes ou livros. O mercado de livros digitais, por exemplo, teve uma supervalorização em relação a livros com conteúdo hot. Mas, afinal, o que é hot?
Para falarmos sobre um hot elegante, devemos definir o significado de hot, não é mesmo? Bom, dizer que um conteúdo é hot significa dizer que possui alguma liberdade sexual nas cenas. Porém, até mesmo tais liberdades são limitadas de acordo com a idade recomendada para a leitura.
Sei que existem outras classificações etárias, com +15 ou +17, mas vamos focar nas mais utilizadas neste artigo
+14
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Aqui não se configura um hot, mas já pode ser abordado uma relação sexual de maneira sugestiva, breve, distante. Ela, de forma alguma, pode ser o foco. Também não aconselho que dure mais que um parágrafo, ou sua classificação terá que subir.
“Toquei seu corpo. Ouvi seus sonssugerindo que continuasse, então o beijei calorosamente. Ele queria mais do meu toque. É tão forte que não posso mais aguentar. Entre beijos quentes, caminhamos até a cama. Ele me deitou e beijou cada cantinho do meu corpo. Durante a noite toda.”
Vamos analisar? Aqui, claramente, o erotismo não existe. É sugestivo, de forma que um adolescente não sinta maldade, mas que um adulto entenda exatamente o que quis dizer com “durante a noite toda”. O sexo não é explorado ou sequer abordado de uma forma clara, por isso as únicas sensações indutivas são interpretativas, como “beijei calorosamente” ou “tão forte que não posso aguentar”.
+16
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Aqui se aplica um hot e, sim, existem cenas quentes que são mais sugestivas que explícitas, apegando-se mais aos sentimentos do que à descrição expositiva.
“Toquei seu corpo com intensidade. Ouvi seus sons sugerindo que continuasse, então o beijei calorosamente, suando. Ele queria mais do meu toque, então começou a tirar sua roupa, apressado, enquanto me beijava. É tão forte que não posso mais aguentar. Entre beijos quentes, despidos, caminhamos até a cama. Ele me deita e beija cada cantinho do meu corpo, fazendo-me arfar. Eu quero mais. Preciso de mais. É quando sussurro em seus lábios para fazer o que quiser comigo. E ele faz. Durante toda a noite, se deliciando em mim, e eu, nele. Como um casal inseparável. Eu sou dele e ele é meu.”
Começamos com “intensidade” para camuflar detalhes explícitos, assim como “sons sugerindo que continuasse”, “despidos”, “beija cada cantinho do meu corpo”, “ele faz” e “deliciando”. Algumas dessas formas de camuflar estão presentes também no exemplo +14, só que de forma mais breve e branda. No +16, desfrutamos bastante de sensações sugestivas da protagonista, como “tão forte que não posso aguentar”, “eu quero mais” e “eu sou dele e ele é meu” para compor a intensidade das sensações presentes na cena sem precisar destrinchar as minúcias dos acontecimentos. Ou seja, substituímos descrições explícitas pela intensidade do sentimento da protagonista. Para um hot de qualidade, caso não queira que seja explícito, é aconselhável desbravar as sensações dos envolvidos, substituindo os detalhes de corpos e ações por detalhes dos sentimentos. O hot +16 é sensual, não erótico.
+18
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Existem cenas quentes que não se limitam a sugestões, mas expõe cada detalhe. Essas cenas são recomendadas para maiores de dezoito.
“Toquei seu corpo com muita vontade. Ouvi seus gemidos pedindo que continuasse, então o beijei calorosamente, suando. Ele queria mais do meu toque, então começou a tirar sua roupa, apressado, enquanto me beijava e mordia, revelando o seu órgão duro. É tão forte que não posso mais aguentar. Entre beijos lascivos, nus, caminhamos até a cama. Ele me deita e beija meu pescoço, depois meu mamilo, e em seguida desce até minha região íntima, mergulhando no meu clítoris, me fazendo gemer de prazer. Eu quero mais. Preciso de mais. É quando sussurro em seus lábios para fazer o que quiser comigo. E ele faz. Meu amante me vira na cama e me penetra sem nenhuma reserva. Durante toda a noite, se afundando em mim e eu me abrindo para ele. Como um casal colado, erótico. Eu sou dele e ele é meu.”
Aqui, observamos algumas pequenas e fundamentais mudanças. A sugestão é amenizada, e a formalidade, abrandada. Sendo assim, “intensidade” se torna “muita vontade”, algo mais informal e mais tangível assim como “inseparável” se torna “colado, erótico”. Já os “sons” se tornam “gemidos”. É acrescentado também descrições, como “beijava e mordia” ou “órgão duro” e tantas outras mais. É necessário explorar as descrições aqui, para que se tenha uma visualização melhor da cena e a torne, de fato, erótica.
Mas, espere, todo hot +18 é informal e bruto?
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Esse é assunto para o próximo artigo. Enquanto isso, me diga: na nossa escala vampírica, onde seu conteúdo se encaixa? Até mais!
Entender a importância do mostrar, além do contar, é um grande passo. Mas e agora, como colocar em prática? Bianca Gulim dá uma ajudinha…
Muitas vezes a teoria é uma coisa, e a prática é outra bem diferente. Você já sabe que deve mostrar, mas quando se senta para escrever simplesmente não consegue colocar a técnica em prática. Neste artigo eu vou lhe dar uma dica que vai ajudar a destravar o mostrar na sua escrita.
Esconda segredos do seu leitor.
Selecione uma informação de alguma construção: do personagem, do conflito, do contexto… Selecione uma informação e guarde segredo sobre ela. Não conte esse segredo ao leitor!
Ah, Bianca, mas essa informação é muito relevante, o leitor precisa ter acesso a essainformação. Dê seu jeito. Não pode contar, é segredo!
Vou dar uma ajudinha nostálgica. Lembra daquela cena entre a Bella e o Jacob, em que o Jacob quer contar pra Bella que ele vira lobo, mas ele não pode, é um segredo de matilha. Se ele contar, não vai dar certo. Aí, ele começa a dar dicas pra Bella. Ele não pode verbalizar que ele vira lobo, mas se a Bela descobrir sozinha…
Você se lembra, Bella, daquela história que eu contei, na qual havia vampiros e lobos… Você tá sabendo, né, menina, que seu namorado é vampiro? Então, num tá faltando nada nessa equação aí?
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Brincadeiras à parte, o que importa pro Jacob é que a Bella receba a informação. Se ele não pode contar, vai ajudá-la a descobrir sozinha.
É isso que você tem de fazer, escritor. Selecione quais informações serão segredos, e ajude o leitor a descobri-las sozinho.
Vamos de um exemplo prático para facilitar. Supondo que o seu segredo é o fato de que o seu protagonista tem baixa autoestima, não gosta da própria aparência. Você não pode contar isso, mas se o leitor descobrir sozinho… Quais dicas você pode dar para ajudar o leitor a descobrir sozinho que o seu personagem não gosta da própria aparência?
Você pode criar flashbacks de situações em que, na infância, o personagem foi ridicularizado por alguma característica física. Se não quiser uma dica que facilite tanto a interpretação do leitor, você pode espalhar dicas ao longo do enredo, criando situações em determinadas cenas em que o personagem evite espelhos, fotos.
Há diversas opções, e se você se dedicar vai encontrá-las. E, ao encontrar formas de ajudar o leitor a descobrir sozinho a informação que você não pode contar, você estará mostrando.
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Fale a verdade, esconder segredos do leitor vai ou não vai ajudar você a mostrar, além de contar?
Edelweis Ritt dá dicas para que você não confunda texto e história
De telha em telha se constrói um telhado. Assim me senti no início da jornada de escrita. Telha, e não tijolo, porque o telhado me parece mais difícil de construir, servindo assim melhor como metáfora.
A decisão de escrever veio pronta, como provavelmente vem para quem gosta de ler: “Escreva o livro que você não achou no mercado para ler”. Parece fácil. Não é.
Como muitas pessoas, comecei em sites de escrita. Acho importante receber retorno de outras pessoas. Nesse primeiro momento, eu cometia o erro mais básico para um escritor: confundia meu texto com a história. E, assim, quando alguém não gostava, eu concluía que tinha que mudar a história, e isso fazia com que eu nunca convergisse para uma história com densidade.
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O que quero dizer com confundir história com texto? Vou exemplificar, e para isso vou usar uma história que todos conhecem, a história da Chapeuzinho Vermelho, usando apenas o início da história para ficar simples. Vou escrever duas versões do primeiro momento em que a mãe de Chapeuzinho pede que ela leve algumas coisas à sua avó.
Chapeuzinho Vermelho, tradicional:
Era uma vez uma doce menininha que todos chamavam de Chapeuzinho Vermelho. Isso era porque ela sempre usava uma capa vermelha com um gorro que a sua avó havia lhe dado de presente.
Um dia, a mãe de Chapeuzinho Vermelho a chamou e disse:
— Minha filha, você pode pegar esta cesta e levar para a sua vovó? Aí dentro tem pão, manteiga, bolo e algumas frutas. Ela está se sentindo doente e isto pode ajudá-la a se sentir melhor. Mas não saia do caminho e vá direto para a casa de sua avó, sem parar para falar com nenhum estranho, certo?
O texto é simples e direto com linguagem simples para que seja entendido em qualquer idade.
Eu poderia escrever o mesmo trecho em primeira pessoa:
Naquele dia ensolarado, mas levemente frio, encontrei minha mãe na cozinha embrulhando alguns pães e frutas em uma cesta. Havia grandes olheiras sob seus olhos maldormidos e ela se movia com dificuldade.
— Minha filha, você pode pegar esta cesta e levar para a sua vovó? — ela disse cobrindo tudo com um pano de prato surrado . — Sua avó está se sentindo doente e isto pode ajudá-la a se sentir melhor. Não desvie do caminho nem fale com estranhos.
Voltei ao quarto e retirei a capa vermelha que minha vó me dera do espaldar da cadeira de palha. Foi por eu usá-la tanto que tinha ganhado o apelido de Chapeuzinho vermelho.
Espero que essas duas versões já demonstrem de forma clara o meu argumento. Eu poderia escrever mil versões desse início, em linguagem poética, em primeira pessoa pelo ponto de vista da mãe e até da avó, que vai ser comida. Me parece um exercício genial; se tentar, me envie, pois vou adorar ler.
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Desde que entendi a diferença entre texto e história, minha escrita mudou. Para mim pessoalmente funciona pensar na história antes de tudo, mas há quem o faça durante a escrita. Não funciona para mim.
Penso na história diariamente e vou acrescentando os elementos até ter um plot espesso, crível. Só depois me sento para escrever, e, acreditem, às vezes escrevo diversas vezes o mesmo capítulo mantendo a história, mas alterando o texto, que hoje sei ser maleável como massinha de modelar.
Torço para que este artigo contribua para que você não confunda o texto com a história.
Ane Forcato, autora da série Tokio!, mostra a importância de gerar empatia no leitor e como fazê-lo
Hoje inauguro esta coluna com o objetivo de viabilizar uma conversa de escritor para escritor. Tomara que seja um bate-papo bacana, afinal vou falar sobre uma de minhas maiores fontes de inspiração! O que posso falar logo de cara é que desde pequena eu já experimentava suas altas doses de emoção…
Assistir a um anime em prantos faz parte, mas que emoção é essa?
Beleza plástica, trilhas sonoras, elaboração refinada dos universos, tudo isso e mais um pouco vêm como mero suporte sensorial. E então vem a cereja do bolo: personagens e conflitos que irão se aprofundar ao longo da trama, fazendo com que você navegue do amor ao ódio, do ódio ao amor, da piedade à sincera amizade. E você não se sentirá indiferente.
Percebe a relevância disso? A empatia está diretamente ligada aos personagens, e, ainda que estejam em um universo protagonizado por criaturas diversas (não humanas), para se envolver com seus dilemas o leitor terá que se colocar em seu lugar. Essa é a chave que o bom anime sabe destravar.
Por mais que nós, escritores, usemos de criatividade na condução de uma narrativa, a empatia é a chave para que o leitor seja seduzido. Acima da riqueza do cenário, no fim é sempre o fator humano que conta. Por isso uma história de batalhas heroicas pode funcionar tão bem quanto um conto introspectivo que se passa somente dentro da mente de alguém!
Do anime para a escrita, esse fator deve estar presente visando a conexão com o ser humano que desfruta da obra, certo? Colocar-se no lugar do outro gera a cumplicidade necessária para que o leitor devore as páginas em todos os gêneros literários.
É um desafio e tanto, de qualquer forma, inclusive no que se refere ao ritmo: a empatia não é gerada de uma hora para a outra. Na próxima vez que assistir a um anime, lembre-se de observar as camadas, pois é por meio delas que, muitas vezes, a empatia é explorada pelo autor, principalmente no que se refere ao seu crescimento. Não é no primeiro episódio que você irá desvendar o protagonista e a cair de amores por ele, mas observe suas mudanças ao longo da narrativa, conforme os conflitos se apresentam e suas decisões o conduzem pelos eventos — ou seja, vá com calma na construção dessa empatia. Observe como suas ações atuais são justificadas pelos fatos do passado apresentados de forma despretensiosa; os melhores são aqueles que mudam de lado, são levados a agir de forma inesperada, fazendo crescer sua personalidade — o leitor pode não sentir empatia pelo personagem hoje, mas isso pode acontecer se ele entender quem o personagem foi, o que o tornou quem é.
No entanto, antes de saber de seus dilemas, é necessário obter pistas claras da aparência dos personagens, pois isso também gera empatia. É importante o leitor saber como os visualizar, para adiante não cair na armadilha de ter idealizado alguém diferente e sofrer um distanciamento, o que certamente dificulta no processo de criação de empatia no leitor. Assim como na vida, a aparência de alguém é o nosso primeiro contato e, além de ilustrar faixa etária, grupo étnico etc., já define alguns traços de personalidade. Por exemplo, o código do vestuário, a postura. Se o leitor logo descobre que aquele personagem é baixinho e usa roupas de couro, suas dificuldades ou vantagens não precisarão ser muito explicadas para sua ação fazer sentido na sequência. Ler é movimento, palavras são estáticas apenas na página do livro. Na mente se percorre lugares que o texto indica, e além.
Essa introdução à aparência do personagem é sempre dramática no anime. O personagem chega com um vento rodopiando seus trajes e cabelos, a imagem vem em uma tomada triunfal de baixo para cima, enquadrando por último o seu rosto permeado de intenções. Depois, ok, ele será mocinho ou bandido, mas a chegada… ah, é para fisgar o olhar e não passar despercebido! E a empatia começa a ser criada assim, sendo melhor explorada adiante.
Mas agora eu quero saber de você: quando escreve tem em mente essa estratégia de criar empatia por meio dos seus personagens e seus conflitos, da apresentação à construção? Se não, me conte se este artigo vai mudar as coisas para você.
Bianca Gulim, nossa produtora editorial, explica as diferenças entre preparação e revisão, esclarecendo a importância desse entendimento para o processo editorial de um livro
Muitos confundem essas duas etapas essenciais para a editoração de um livro. E eu já começo respondendo à pergunta que mais me fazem: o seu livro precisa de preparação ou de revisão? Dos dois. E, sim, eu não preciso avaliar o seu original para saber que ele precisa das duas etapas, pois todos os originais precisam, inclusive os escritos por escritores best-sellers.
De uma forma simples: a preparação melhora o seu texto, e a revisão, corrige. Os próprios termos já esclarecem: a preparação vai preparar o seu original para a publicação, para o público, e a revisão vai revisar o trabalho realizado na preparação para realizar as correções não feitas na etapa anterior.
Enquanto o revisor foca nos erros — principalmente gramática e ortografia, mas também qualquer erro, como de coesão e coerência, e também os erros gráficos de diagramação —, o preparador foca em todo o resto que envolva a qualidade da produção textual. Sendo assim, o nível de intervenção na preparação é muito maior, e por isso a edição é realizada em arquivo .doc, pois o word oferece ferramentas para edições robustas, além de marcar cada uma delas para que o escritor possa avaliá-las.
O nível de intervenção realizado na preparação vai depender da qualidade do original. Originais com muitos problemas carecem de um nível de intervenção alto, enquanto originais com poucos problemas carecem de um nível de intervenção baixo.
Muito depende também das particularidades da obra, se há uma proposta diferenciada, mas, no geral, na preparação de texto o profissional se atenta principalmente a:
Coesão: as palavras e frases precisam fazer sentido entre si, e a coesão garante essa ligação correta, harmônica entre as partes de um texto.
Coerência: as informações precisam fazer sentido com o que conhecemos de mundo, e a coerência garante que haja ligação lógica entre as ideias contidas num texto.
Fluidez: salvo exceções, o ideal é que a leitura de um texto flua sem engasgos, sem que o leitor precise fazer pausas, precise reler trechos para conseguir fazer a correta interpretação. Normalmente, quando a coerência e a coesão estão corretas, o texto é claro, fluido, mas muitas vezes é preciso ir além: uma frase de dez linhas pode estar correta, mas pode dificultar a leitura, quebrar a fluidez.
Repetições e vícios de linguagem: todo escritor deixa passar repetições em seu texto e tem seus próprios vícios de linguagem. É o preparador que vai eliminá-los, seja de modo simples, substituindo determinadas palavras por sinônimos, ou de modo mais complexo, reformulando frases.
Adaptação da linguagem ao público-alvo e ao conteúdo proposto: cada livro tem sua proposta e, consequentemente, seu público-alvo. Um infantojuvenil, por exemplo, exige construção de frases mais simples, linguagem informal, desapego à gramatica normativa, entre outros. A linguagem abordada – e aqui estamos falando também de erros gramaticais propositais – precisa estar adaptada ao conteúdo e ao público-alvo.
Padronização: cada editora tem a sua padronização de estilo; por exemplo: os números são grafados em numeral ou em extenso? Quais termos são grafados em caixa-alta?
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Ufa! É muita coisa pra prestar atenção durante a preparação de texto, não é? E tem mais: o preparador ainda precisa se atentar a erros gramaticas e ortográficos. É possível fazer tudo isso? Não. É inevitável que o preparador deixe erros passar. E, como o foco dele são alterações robustas, que muitas vezes exigem reformulação de frases, os erros simples — gramática e ortografia — é no que ele menos presta atenção.
É por isso que existe a etapa de revisão, para que um profissional edite novamente o texto preparado em busca dos erros que o preparador deixou passar. Normalmente, o texto preparado é diagramado, de modo que o revisor revise a diagramação, e por isso faz parte do seu trabalho também se atentar a erros de projeto gráfico: formatação, alinhamento, espaçamento, linhas órfãs, viúvas, entre outros. Ou seja, o revisor, como o termo sugere, revisa o que já foi feito: no que o preparador e o diagramador erraram?
Quando um texto foi bem preparado, os erros que sobram para o revisor são, no geral, de gramática e ortografia. As decisões robustas, que envolvem a abordagem do texto, a linguagem, o tom, o ritmo, já foram tomadas na preparação, e cabe ao revisor respeitá-las, focando unicamente em erros, inclusive os de padronização. Eventualmente, porém, o revisor poderá ter de lidar com correções que exigem alterações robustas, como os de coerência e coesão, e até os de conteúdo, como os de estrutura.
Alguns erros gramaticais também podem ser um inconveniente para o revisor, pois exigem alterações maiores. Veja, por exemplo, o erro de tempo verbal: se o preparador não tiver se atentado ao pretérito mais-que-perfeito, por exemplo, essa correção pode arruinar a linguagem do livro — imagine várias páginas com conjugações como “fizera”, “falara”, “beijara” —, ou, para que isso não ocorra, pode demandar uma mudança de estrutura, transformando alguns trechos em flashbacks. Isso é um problemão para a editoração, pois um texto diagramado não deve sofrer muitas alterações, não só para não gerar retrabalho, mas também para diminuir a chance de erro.
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Ficou claro que o preparador precisa, sim, se atentar à gramatica e ortografia durante a preparação, né? Ele não pode se apoiar no fato de que é inevitável deixar erros passar para realizar um trabalho sem estratégia. O preparador de textos precisa saber quais falhas são convenientes deixar para o revisor, e quais não. Até por uma questão de quantidade: uma coisa é deixar alguns erros passar, e outra coisa é deixar milhares.
Vale ressaltar que o tema aqui abordado é complexo e vai muito além dos exemplos trazidos. O trabalho com o texto não é nada fácil; não é à toa que é dividido entre várias etapas, realizadas por profissionais diferentes. Como estou me comunicando em maioria com escritores, que não têm um know-how completo sobre produção textual, resumi bastante e optei por exemplos que facilitem o entendimento.
Mas, me diga, deu pra entender a diferença entre preparação e revisão? Espero que sim.
Helena Grillo, escritora dedicada ao público infantojuvenil, fala sobre o comum erro de considerar o leitor jovem pouco exigente
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Desde que comecei a escrever livros, em 2015, percebi que o primeiro passo é não subestimar o leitor. Não é porque são jovens que vão aceitar um enredo com uma problemática facilmente resolvida. Os autores de infantojuvenis têm que se concentrar em aprofundamentos além da ação, aventura e fantasia. Muitas vezes os escritores estão tão focados na construção de cenário que se esquecem dos personagens, por exemplo.
Um exemplo disso está na saga Percy Jackson: não é porque Percy achou o velocino de ouro, ou porque encontrou o verdadeiro ladrão de raios, ou porque derrotou um titã que todos os problemas do personagem foram solucionados. Ele tem questões internas, sentimentais, familiares e até de autoestima que são trabalhadas ao longo da série — mas cuidado: não são todos os jovens que têm depressão, ansiedade ou transtornos psicológicos, como no caso do Percy, então não saia explorando um caso em cada um dos seus personagens, certo?
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Caso os seus protagonistas sejam adolescentes, como é o caso da maioria das histórias destinadas ao público infantojuvenil, pesquise que tipo de questões se passam na cabeça de pessoas dessa idade. Um jovem de 12 anos preocupado com a aposentadoria até pode acontecer, mas é algo bem fora da curva. Se quer se conectar com o público jovem, converse com alguém da idade do personagem, pergunte o que o aflige e o que ele anseia. É possível fazer uma pesquisa de campo e até incluir o seu público-alvo entre os leitores-beta.
E, sinceramente, essa dica serve para todos os públicos, embora eu veja essa problemática mais presente nas obras destinadas ao público jovem, pois há a errada interpretação de que esse leitor, por ser um leitor ainda inexperiente em maioria, se contenta com pouca coisa. Veja: por que “Orgulho e preconceito” é diferente de muitos romances e mesmo depois de anos ainda chama atenção? Porque não subestimou o leitor. Foi um romance sem soluções fáceis, com dois personagens que não têm apenas a preocupação de ficarem juntos, como também uma bagagem emocional forte. O senhor Darcy, por exemplo, lida com a responsabilidade de ser o líder de sua família e zelar por sua irmã mais nova, principalmente depois que ela se envolve com George Wickham, que queria usá-la. Jane Austen não achou que seus leitores queriam romance só pelo romance, mas pela ligação que eles teriam com os personagens, fazendo assim com que nos importássemos com o que aconteceria com eles.
Voltando ao público adolescente, os três primeiros livros da saga Harry Potter têm finais fechados, porque não se imaginava se haveria mais livros ou não, além de serem voltados para o público infantil. Mas a autora — que aqui chamarei de Emma Watson, e vocês devem imaginar o porquê — percebeu que o público foi crescendo com o passar dos anos, da mesma forma que os personagens. Então os problemas, as dúvidas e as soluções foram se tornando mais complexos. Por isso até hoje ficamos com a dúvida: Snape era bom ou mau? Isso porque durante o decorrer da série foi mostrado o motivo para ele tomar cada atitude, fosse ela moralmente torta ou não.
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Meu foco até agora foi na construção dos personagens, mas a regra de não subestimar o leitor vale para tudo. Outro ponto importante é o cenário. É preciso ter em mente que um jovem dos dias de hoje não vai ter as mesmas preocupações de um jovem do século XVIII. Esse, inclusive, é o choque vivido por Mônica e Marina, minhas protagonistas, que viajam no tempo justamente para essa época em “Espadas e pistolas” Elas percebem não ter a mesma mentalidade de outras pessoas da mesma idade, pois há um choque cultural. E eu sei muito bem que não é porque o público é jovem que ele não vai saber que na idade média, por exemplo, não se falava “Qual é?!” ou “É nóis”. Por isso, eu fiz uma grande pesquisa em relação ao contexto histórico dos meus livros.
Entenderam o recado, não é? Ao tomar toda e qualquer decisão em relação ao seu livro, não subestime o leitor jovem!
Está quebrando a cabeça para escrever o book proposal e o resumo do seu livro? Nossa produtora editorial dá uma ajudinha…
O book proposal e o resumo são materiais que o escritor envia a pessoas que ele deseja convencer a ler seu original — normalmente editores e agentes literários, que não têm tempo para ler todos os originais que recebem.
Se o book proposal convencer, o editor lerá o resumo, e, se ele convencer também, lerá o original. Nem preciso mencionar o quanto a qualidade desses materiais é importante, certo? Não adianta o original ser incrível, se o book proposal e o resumo não o forem, pois, nesse caso, o editor sequer chegará até o resumo.
Mas como fazer um book proposal e um resumo que convençam o editor a ler seu original? Eu ajudo você.
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A primeira coisa que eu quero esclarecer é que você, escritor, está sendo avaliado desde o primeiro “Oi” digitado no e-mail. A forma como você se comunica — vocabulário, tom, gramática, ortografia —, até o layout escolhido por material enviado estão dando um feeling ao editor do seu perfil. Um e-mail mal redigido é o suficiente para que o editor sequer abra os anexos — é isso não faz der o vilão, e sim de você um escritor despreparado, que, me desculpe, realmente não merece o tempo do editor.
Posto isso, vamos às dicas para a criação de book proposal e resumo incríveis!
Book proposal
O book proposal é a apresentação do livro. As principais perguntas que o editor tem em mente ao avaliar esse material é: “Esse livro se encaixa em meu catálogo?” e “Qual o diferencial desse livro em relação aos demais que eu recebi?”. Deve ser um material curto, com leitura de até dez minutos; ou seja, texto claro e objetivo.
O seu book proposal deve conter:
Biografia: foque na sua carreira literária. O editor não quer saber se você gosta de cães e de viajar: esse tipo de informação pessoal é interessante — se couber, considerando todas as outras informações mais relevantes — na orelha do livro, pois o leitor até se interessa por esses detalhes; o editor, não. Aqui, é o momento de você mostrar que tem bagagem: mencione suas publicações, os números alcançados, as marcas conquistadas.
Sinopse: para saber como escrever uma boa sinopse, clique aqui.
Justificativa: se você estivesse em uma entrevista de emprego, a justificativa seria a pergunta “Por que devemos contratar você?”. Mostre ao editor por que ele deve publicar o seu livro. Fale sobre os principais pontos positivos do original, principalmente no que se refere aos seus diferenciais.
A justificativa pode ser mutável em relação a cada editora, pois o estilo de cada catálogo deve conduzir você a argumentos diferentes.
Ficha técnica: gênero, público-alvo, quantidade de laudas, quantidade de capítulos, se se trata de inédito ou segunda edição, entre outros.
É desejável que seu book proposal contenha:
Técnicas literárias: mencione quais técnicas literárias explorou.
Investimentos realizados: mencione quantas leituras críticas, preparações e revisões você contratou para garantir a qualidade do original.
Trajetória: caso não se trate de um inédito, mencione a trajetória do livro até ali, dando destaque para números e marcas alcançados.
Se quiser um modelo de book proposal para ajudar na compressão, clique aqui.
Resumo
O resumo deve resumir a história, com começo, meio e fim. Não se preocupe com spoiler; o editor não lê um original como leitor. Este material pode ser mais extenso: até dez páginas é aceitável.
Tenha em mente que o resumo deve ser feito de maneira estratégica: não basta apenas resumir a história, os eventos narrados. Enquanto faz isso, vá mencionando as técnicas literárias utilizadas, descrevendo o efeito que pretende no leitor, vá encontrando ganchos para trazer informações relevantes como: tempo verbal na narrativa, estilo de narrador, objetivo da obra etc, assim como o resultado obtido por meio dessas escolhas.
É muito importante que você escreva o resumo impondo o seu estilo narrativo, o mesmo utilizado no original. A ideia é que o editor tenha um feeling, no mínimo, do estilo da sua produção textual; se tiver um feeling também do estilo da sua narrativa, melhor ainda. Na escrita do resumo, técnicas literárias devem ser utilizadas, pois é a vontade de continuar a leitura do resumo que conduzirá o editor a considerar a leitura do original.
Em outras palavras: se o livro se propõe a confundir o leitor, faça o mesmo por meio do resumo; se o original conta com linguagem informal, vocabulário raso, construção de frases simples, não enfeite o resumo com um texto rebuscado, complexo; se no original você explorou mais de uma camada narrativa, faça o mesmo no resumo: lembre que o editor é um leitor experiente, capaz de interpretar as mensagens ocultas além da superfície do texto. O estilo do livro, as decisões tomadas na escrita do original, devem ser refletidas no resumo.
Se quiser um modelo de resumo para ajudar na compressão, clique aqui.
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Ufa! Não é fácil, não é? Por isso, leve a sério minha última dica: contrate pelo menos um preparador e um revisor para atuar no seu book proposal e no seu resumo, pois um texto coerente, coeso e correto é o mínimo que você deve garantir.
E aí, já está pronto para criar o book proposal e resumo do seu livro? Eu garanto que qualquer editor, mesmo aquele que atua em uma editora prestadora de serviço, olhará você com outros olhos se fizer uso desses materiais ao se candidatar a uma publicação, tradicional ou paga.
Breno S. M., autor de “A garota do apartamento 45” traz sua visão sobre a influência da solidão em grandes nomes da literatura. Confira.
Sylvia Plath foi uma grande poeta norte-americana, autora de “A Redoma de Vidro”, seu único romance, publicado apenas semanas antes de seu suicídio — esse último fato vai se tornar mais relevante até o fim deste texto. Mas como essa autora, falecida em 1963, tem relação com Clarice Lispector, Kafka e Albert Camus? Aliás, o que esses autores têm em comum?
Imagem: digulvação; Albert Camus, Sylvia Plath, Clarice Lispector e Kafka.
Apesar do enorme salto temporal entre o nascimento e falecimento de cada, todos têm algo em comum: viveram após a primeira revolução industrial, sendo que Clarice e Sylvia experienciaram a Segunda Guerra e o fim da segunda revolução industrial. É aí que as coisas se conectam.
Talvez não seja um fato tão conhecido, mas segundo a obra A biography of loneliness: the history of na emotion, de Fay Bound Alberti, o uso — e, em fato, o conceito — da palavra “solidão” só começou a ser usado de forma relevante a partir da primeira revolução industrial, desde quando, estatisticamente, a frequência do uso subiu de maneira exponencial e surpreendente.
Acredito que, com as transformações desse período e os marcos históricos posteriores, houve uma grande mudança no comportamento e experiência humana nunca antes vista, o que influenciou as narrativas em que a humanidade acreditava e, consequentemente, os sistemas filosóficos.
Em O mito de Sísifo, Albert Camus apresenta um sistema de pensamento que, simplificadamente, diz respeito ao inerente abalo de se existir como humano. É uma obra que tem como enfoque a sensação de alienação que as formas de modelação humanas criam como uma maneira de se habituar ao extraordinário da existência.
Imagem: divulgação; edição da editora Record
Exemplifica-se, assim, a relação rotineira e banal das formas de trabalho, das maneiras de se pensar, agir, interagir e falar. Em suma, evitamos diária e inconscientemente — embora nem sempre — o confronto com o destino da morte e do sofrimento, que são inevitáveis.
Daí, surge o tipo de alienação que nos impede de olhar para uma simples rocha, por exemplo, e ficarmos fascinados ou abismados com sua mera existência, a mesma linha de narrativa que contamos a nós mesmos quando estamos totalmente acostumados a trabalhar quase, senão de fato, todos os dias para conseguir um papel com um valor totalmente simbólico em troca, enriquecendo os donos das grandes empresas — não vou entrar nessa linha de raciocínio, prometo —, modelando nossos relacionamentos em torno do capital, produzindo em torno e por ele a ponto de automatizarmos boa parte de nossas conversas — o que imita o modelo de produção em uma fábrica, por exemplo —, que, como consequência, se tornam muitas vezes superficiais; tudo isso enquanto existimos num universo infinito e complexo, onde a mera vida, nas formas com as quais estamos tão habituados, e a consciência são fatos fascinantes tanto do ponto de vista científico e matemático quanto filosófico. Tudo isso quando sabemos que logo iremos morrer.
Surge Kafka, então, na linha de raciocínio, que, além de possuir uma biografia trágica — e, inclusive, solitária —, representa todo esse processo numa espécie de horror existencial e psicológico, no qual a figura da barata, tão popularizada nesse sentido por suas obras, ganha um simbolismo se espanto, bem como Albert Camus diagnosticaria, ao confrontar toda essa verdade, que é, por si mesma, alienante. Suas obras marcam a tragédia dessa falta de sentido e a sensação de vazio em todos os contextos, desde as relações humanas — como a de trabalho, produção e exploração, quanto o caráter puramente subjetivo e humanístico em si.
Em várias obras, Clarice menciona “a coisa”, um objeto imaginário e subjetivo, uma sensação e estado de consciência, que é percebida, ainda que de forma sublime, pelos seus personagens com uma grande certeza. Porém, a busca dessa coisa difícil de sequer compreender traz, por muitas vezes, o sofrimento, angústia, agitação e até mesmo a loucura — eu destacaria, como exemplo, a obra A maçã no escuro.
Imagem: divulgação/ edição digital da editora Rocco
Diria que, entre tantas interpretações possíveis, uma das mais simples delas, porém não menos importante, é justamente a procura por uma verdade, uma certeza que preencha o vazio, que num mundo líquido, como diria Zygmunt Bauman, ou numa cultura de “enxames”, como diria Byung-Chul Han, é certa e sólida. É, de maneira fundamental, embora não precisamente substancial, uma luta contra a solidão, inclusive a solidão do “eu”.
Finalizo com um trecho de A redoma de vidro: “Eu sou, eu sou, eu sou”.
Bianca Gulim, nossa produtora editorial, abre os bastidores da relação entre escritor e editor: quando escrever é fácil e rápido
Você já ouviu que escrever um livro é fácil? Que dá pra fazer rapidinho?
Se você está chocado, ponto pra você. Mas vou chocá-lo mais: muitos livros do mercado alternativo foram escritos – do rascunho ao original finalizado – em um, dois, três meses; foram escritos por escritores que nunca fizeram um curso voltado pra área, nunca leram um livro de autoajuda profissional, simplesmente decidiram escrever um livro, se sentaram e escreveram; por escritores que não revisam seus originais uma vez sequer, que digitam o último ponto-final e consideram o original pronto.
Vou cumprir com minha obrigação: é possível que um escritor com esse perfil escreva um livro de qualidade, seja ela literária ou comercial, ou ambas? É. Há gênios por aí. Mas, olha, eles são bem raros, viu? A chance de você ou eu ser um deles é muito baixa. Então vamos trabalhar com a regra, e não a exceção, tá?
Escritor, eu vou dar uma dica de ouro pra você. Ela pode até soar generalizada, mas eu tenho certeza de que se levá-la em consideração será o melhor para você. Lá vai…
Se escrever estiver sendo fácil e/ou rápido pra você, muito provavelmente você não está escrevendo bons originais.
Gif: Giphy
Escrever bons originais é muito difícil. E quando o editor escuta frases como “Eu escrevi meu livro rapidinho” e “É um dom natural, as coisas simplesmente vêm pra mim”, ele já espera um original sem qualidade. E é batata!
Pense só no processo de revisão. Depois de se dedicar meses, anos para o rascunho, vem o processo de revisão, que é mais trabalhoso ainda. Ler, ler, ler, ler, ler o mesmo texto é um saco! Tem escritor que até pega ranço da história, começa a achar que está tudo chato – e está mesmo, pra ele, pois ninguém quer ler o mesmo texto quinze vezes, muito menos um texto seu. Só essa etapa é difícil pra caramba e leva um baita tempo.
Imagine só o processo toooooooooodo: preparação para ser um escritor – estudo: cursos, vídeos, textos, livros de autoajuda, network, conhecimento de mercado etc –, planejamento do livro – determinação de objetivos e estratégias, criação e análise de todos os elementos de um romance etc –, escrita do rascunho – execução de narrativa, voz do narrador, estilo, linguagem, ritmo da trama, construção de personagens, diálogos, produção textual, gramática básica etc –, revisões do rascunho, compartilhamento da primeira versão do original com leitores betas, análise de feedbacks, revisões na primeira versão do original…
Cara, me cansei só de pensar, e você deve ter cansado só de ler. E eu só resumi, juro! É muito mais difícil do que parece; cada tema mencionado ainda é destrinchado em outros temas, que são destrinchados em outros temas… – pense só em tudo que está envolvido em “determinação de objetivos e estratégias” ou “construção de personagens”. Como é que esse processo tão doloroso e penoso é fácil e rápido pra alguns escritores? Sério, se está fácil e/ou rápido, provavelmente você não está fazendo bem-feito.
E se você quiser insistir na ideia de continuar escrevendo livros rapidinho, na maior facilidade, pelo menos não saía falando isso por aí, porque o seu editor pode até responder um “Ah” ou “Entendi”, mas o que ele está pensando é que vai ter que reservar bastante tempo da agenda dele para o seu cronograma, porque a edição do seu original vai dar um trabalhão.
E você, está escrevendo seus livros rapidinho?
Até a próxima!
Escrito por
Bianca Gulim
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