Entender a importância do mostrar, além do contar, é um grande passo. Mas e agora, como colocar em prática? Bianca Gulim dá uma ajudinha…
Muitas vezes a teoria é uma coisa, e a prática é outra bem diferente. Você já sabe que deve mostrar, mas quando se senta para escrever simplesmente não consegue colocar a técnica em prática. Neste artigo eu vou lhe dar uma dica que vai ajudar a destravar o mostrar na sua escrita.
Esconda segredos do seu leitor.
Selecione uma informação de alguma construção: do personagem, do conflito, do contexto… Selecione uma informação e guarde segredo sobre ela. Não conte esse segredo ao leitor!
Ah, Bianca, mas essa informação é muito relevante, o leitor precisa ter acesso a essainformação. Dê seu jeito. Não pode contar, é segredo!
Vou dar uma ajudinha nostálgica. Lembra daquela cena entre a Bella e o Jacob, em que o Jacob quer contar pra Bella que ele vira lobo, mas ele não pode, é um segredo de matilha. Se ele contar, não vai dar certo. Aí, ele começa a dar dicas pra Bella. Ele não pode verbalizar que ele vira lobo, mas se a Bela descobrir sozinha…
Você se lembra, Bella, daquela história que eu contei, na qual havia vampiros e lobos… Você tá sabendo, né, menina, que seu namorado é vampiro? Então, num tá faltando nada nessa equação aí?
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Brincadeiras à parte, o que importa pro Jacob é que a Bella receba a informação. Se ele não pode contar, vai ajudá-la a descobrir sozinha.
É isso que você tem de fazer, escritor. Selecione quais informações serão segredos, e ajude o leitor a descobri-las sozinho.
Vamos de um exemplo prático para facilitar. Supondo que o seu segredo é o fato de que o seu protagonista tem baixa autoestima, não gosta da própria aparência. Você não pode contar isso, mas se o leitor descobrir sozinho… Quais dicas você pode dar para ajudar o leitor a descobrir sozinho que o seu personagem não gosta da própria aparência?
Você pode criar flashbacks de situações em que, na infância, o personagem foi ridicularizado por alguma característica física. Se não quiser uma dica que facilite tanto a interpretação do leitor, você pode espalhar dicas ao longo do enredo, criando situações em determinadas cenas em que o personagem evite espelhos, fotos.
Há diversas opções, e se você se dedicar vai encontrá-las. E, ao encontrar formas de ajudar o leitor a descobrir sozinho a informação que você não pode contar, você estará mostrando.
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Fale a verdade, esconder segredos do leitor vai ou não vai ajudar você a mostrar, além de contar?
Bianca Gulim, nossa produtora editorial, explica as diferenças entre preparação e revisão, esclarecendo a importância desse entendimento para o processo editorial de um livro
Muitos confundem essas duas etapas essenciais para a editoração de um livro. E eu já começo respondendo à pergunta que mais me fazem: o seu livro precisa de preparação ou de revisão? Dos dois. E, sim, eu não preciso avaliar o seu original para saber que ele precisa das duas etapas, pois todos os originais precisam, inclusive os escritos por escritores best-sellers.
De uma forma simples: a preparação melhora o seu texto, e a revisão, corrige. Os próprios termos já esclarecem: a preparação vai preparar o seu original para a publicação, para o público, e a revisão vai revisar o trabalho realizado na preparação para realizar as correções não feitas na etapa anterior.
Enquanto o revisor foca nos erros — principalmente gramática e ortografia, mas também qualquer erro, como de coesão e coerência, e também os erros gráficos de diagramação —, o preparador foca em todo o resto que envolva a qualidade da produção textual. Sendo assim, o nível de intervenção na preparação é muito maior, e por isso a edição é realizada em arquivo .doc, pois o word oferece ferramentas para edições robustas, além de marcar cada uma delas para que o escritor possa avaliá-las.
O nível de intervenção realizado na preparação vai depender da qualidade do original. Originais com muitos problemas carecem de um nível de intervenção alto, enquanto originais com poucos problemas carecem de um nível de intervenção baixo.
Muito depende também das particularidades da obra, se há uma proposta diferenciada, mas, no geral, na preparação de texto o profissional se atenta principalmente a:
Coesão: as palavras e frases precisam fazer sentido entre si, e a coesão garante essa ligação correta, harmônica entre as partes de um texto.
Coerência: as informações precisam fazer sentido com o que conhecemos de mundo, e a coerência garante que haja ligação lógica entre as ideias contidas num texto.
Fluidez: salvo exceções, o ideal é que a leitura de um texto flua sem engasgos, sem que o leitor precise fazer pausas, precise reler trechos para conseguir fazer a correta interpretação. Normalmente, quando a coerência e a coesão estão corretas, o texto é claro, fluido, mas muitas vezes é preciso ir além: uma frase de dez linhas pode estar correta, mas pode dificultar a leitura, quebrar a fluidez.
Repetições e vícios de linguagem: todo escritor deixa passar repetições em seu texto e tem seus próprios vícios de linguagem. É o preparador que vai eliminá-los, seja de modo simples, substituindo determinadas palavras por sinônimos, ou de modo mais complexo, reformulando frases.
Adaptação da linguagem ao público-alvo e ao conteúdo proposto: cada livro tem sua proposta e, consequentemente, seu público-alvo. Um infantojuvenil, por exemplo, exige construção de frases mais simples, linguagem informal, desapego à gramatica normativa, entre outros. A linguagem abordada – e aqui estamos falando também de erros gramaticais propositais – precisa estar adaptada ao conteúdo e ao público-alvo.
Padronização: cada editora tem a sua padronização de estilo; por exemplo: os números são grafados em numeral ou em extenso? Quais termos são grafados em caixa-alta?
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Ufa! É muita coisa pra prestar atenção durante a preparação de texto, não é? E tem mais: o preparador ainda precisa se atentar a erros gramaticas e ortográficos. É possível fazer tudo isso? Não. É inevitável que o preparador deixe erros passar. E, como o foco dele são alterações robustas, que muitas vezes exigem reformulação de frases, os erros simples — gramática e ortografia — é no que ele menos presta atenção.
É por isso que existe a etapa de revisão, para que um profissional edite novamente o texto preparado em busca dos erros que o preparador deixou passar. Normalmente, o texto preparado é diagramado, de modo que o revisor revise a diagramação, e por isso faz parte do seu trabalho também se atentar a erros de projeto gráfico: formatação, alinhamento, espaçamento, linhas órfãs, viúvas, entre outros. Ou seja, o revisor, como o termo sugere, revisa o que já foi feito: no que o preparador e o diagramador erraram?
Quando um texto foi bem preparado, os erros que sobram para o revisor são, no geral, de gramática e ortografia. As decisões robustas, que envolvem a abordagem do texto, a linguagem, o tom, o ritmo, já foram tomadas na preparação, e cabe ao revisor respeitá-las, focando unicamente em erros, inclusive os de padronização. Eventualmente, porém, o revisor poderá ter de lidar com correções que exigem alterações robustas, como os de coerência e coesão, e até os de conteúdo, como os de estrutura.
Alguns erros gramaticais também podem ser um inconveniente para o revisor, pois exigem alterações maiores. Veja, por exemplo, o erro de tempo verbal: se o preparador não tiver se atentado ao pretérito mais-que-perfeito, por exemplo, essa correção pode arruinar a linguagem do livro — imagine várias páginas com conjugações como “fizera”, “falara”, “beijara” —, ou, para que isso não ocorra, pode demandar uma mudança de estrutura, transformando alguns trechos em flashbacks. Isso é um problemão para a editoração, pois um texto diagramado não deve sofrer muitas alterações, não só para não gerar retrabalho, mas também para diminuir a chance de erro.
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Ficou claro que o preparador precisa, sim, se atentar à gramatica e ortografia durante a preparação, né? Ele não pode se apoiar no fato de que é inevitável deixar erros passar para realizar um trabalho sem estratégia. O preparador de textos precisa saber quais falhas são convenientes deixar para o revisor, e quais não. Até por uma questão de quantidade: uma coisa é deixar alguns erros passar, e outra coisa é deixar milhares.
Vale ressaltar que o tema aqui abordado é complexo e vai muito além dos exemplos trazidos. O trabalho com o texto não é nada fácil; não é à toa que é dividido entre várias etapas, realizadas por profissionais diferentes. Como estou me comunicando em maioria com escritores, que não têm um know-how completo sobre produção textual, resumi bastante e optei por exemplos que facilitem o entendimento.
Mas, me diga, deu pra entender a diferença entre preparação e revisão? Espero que sim.
Está quebrando a cabeça para escrever o book proposal e o resumo do seu livro? Nossa produtora editorial dá uma ajudinha…
O book proposal e o resumo são materiais que o escritor envia a pessoas que ele deseja convencer a ler seu original — normalmente editores e agentes literários, que não têm tempo para ler todos os originais que recebem.
Se o book proposal convencer, o editor lerá o resumo, e, se ele convencer também, lerá o original. Nem preciso mencionar o quanto a qualidade desses materiais é importante, certo? Não adianta o original ser incrível, se o book proposal e o resumo não o forem, pois, nesse caso, o editor sequer chegará até o resumo.
Mas como fazer um book proposal e um resumo que convençam o editor a ler seu original? Eu ajudo você.
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A primeira coisa que eu quero esclarecer é que você, escritor, está sendo avaliado desde o primeiro “Oi” digitado no e-mail. A forma como você se comunica — vocabulário, tom, gramática, ortografia —, até o layout escolhido por material enviado estão dando um feeling ao editor do seu perfil. Um e-mail mal redigido é o suficiente para que o editor sequer abra os anexos — é isso não faz der o vilão, e sim de você um escritor despreparado, que, me desculpe, realmente não merece o tempo do editor.
Posto isso, vamos às dicas para a criação de book proposal e resumo incríveis!
Book proposal
O book proposal é a apresentação do livro. As principais perguntas que o editor tem em mente ao avaliar esse material é: “Esse livro se encaixa em meu catálogo?” e “Qual o diferencial desse livro em relação aos demais que eu recebi?”. Deve ser um material curto, com leitura de até dez minutos; ou seja, texto claro e objetivo.
O seu book proposal deve conter:
Biografia: foque na sua carreira literária. O editor não quer saber se você gosta de cães e de viajar: esse tipo de informação pessoal é interessante — se couber, considerando todas as outras informações mais relevantes — na orelha do livro, pois o leitor até se interessa por esses detalhes; o editor, não. Aqui, é o momento de você mostrar que tem bagagem: mencione suas publicações, os números alcançados, as marcas conquistadas.
Sinopse: para saber como escrever uma boa sinopse, clique aqui.
Justificativa: se você estivesse em uma entrevista de emprego, a justificativa seria a pergunta “Por que devemos contratar você?”. Mostre ao editor por que ele deve publicar o seu livro. Fale sobre os principais pontos positivos do original, principalmente no que se refere aos seus diferenciais.
A justificativa pode ser mutável em relação a cada editora, pois o estilo de cada catálogo deve conduzir você a argumentos diferentes.
Ficha técnica: gênero, público-alvo, quantidade de laudas, quantidade de capítulos, se se trata de inédito ou segunda edição, entre outros.
É desejável que seu book proposal contenha:
Técnicas literárias: mencione quais técnicas literárias explorou.
Investimentos realizados: mencione quantas leituras críticas, preparações e revisões você contratou para garantir a qualidade do original.
Trajetória: caso não se trate de um inédito, mencione a trajetória do livro até ali, dando destaque para números e marcas alcançados.
Se quiser um modelo de book proposal para ajudar na compressão, clique aqui.
Resumo
O resumo deve resumir a história, com começo, meio e fim. Não se preocupe com spoiler; o editor não lê um original como leitor. Este material pode ser mais extenso: até dez páginas é aceitável.
Tenha em mente que o resumo deve ser feito de maneira estratégica: não basta apenas resumir a história, os eventos narrados. Enquanto faz isso, vá mencionando as técnicas literárias utilizadas, descrevendo o efeito que pretende no leitor, vá encontrando ganchos para trazer informações relevantes como: tempo verbal na narrativa, estilo de narrador, objetivo da obra etc, assim como o resultado obtido por meio dessas escolhas.
É muito importante que você escreva o resumo impondo o seu estilo narrativo, o mesmo utilizado no original. A ideia é que o editor tenha um feeling, no mínimo, do estilo da sua produção textual; se tiver um feeling também do estilo da sua narrativa, melhor ainda. Na escrita do resumo, técnicas literárias devem ser utilizadas, pois é a vontade de continuar a leitura do resumo que conduzirá o editor a considerar a leitura do original.
Em outras palavras: se o livro se propõe a confundir o leitor, faça o mesmo por meio do resumo; se o original conta com linguagem informal, vocabulário raso, construção de frases simples, não enfeite o resumo com um texto rebuscado, complexo; se no original você explorou mais de uma camada narrativa, faça o mesmo no resumo: lembre que o editor é um leitor experiente, capaz de interpretar as mensagens ocultas além da superfície do texto. O estilo do livro, as decisões tomadas na escrita do original, devem ser refletidas no resumo.
Se quiser um modelo de resumo para ajudar na compressão, clique aqui.
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Ufa! Não é fácil, não é? Por isso, leve a sério minha última dica: contrate pelo menos um preparador e um revisor para atuar no seu book proposal e no seu resumo, pois um texto coerente, coeso e correto é o mínimo que você deve garantir.
E aí, já está pronto para criar o book proposal e resumo do seu livro? Eu garanto que qualquer editor, mesmo aquele que atua em uma editora prestadora de serviço, olhará você com outros olhos se fizer uso desses materiais ao se candidatar a uma publicação, tradicional ou paga.
Bianca Gulim, nossa produtora editorial, abre os bastidores da relação entre escritor e editor: quando escrever é fácil e rápido
Você já ouviu que escrever um livro é fácil? Que dá pra fazer rapidinho?
Se você está chocado, ponto pra você. Mas vou chocá-lo mais: muitos livros do mercado alternativo foram escritos – do rascunho ao original finalizado – em um, dois, três meses; foram escritos por escritores que nunca fizeram um curso voltado pra área, nunca leram um livro de autoajuda profissional, simplesmente decidiram escrever um livro, se sentaram e escreveram; por escritores que não revisam seus originais uma vez sequer, que digitam o último ponto-final e consideram o original pronto.
Vou cumprir com minha obrigação: é possível que um escritor com esse perfil escreva um livro de qualidade, seja ela literária ou comercial, ou ambas? É. Há gênios por aí. Mas, olha, eles são bem raros, viu? A chance de você ou eu ser um deles é muito baixa. Então vamos trabalhar com a regra, e não a exceção, tá?
Escritor, eu vou dar uma dica de ouro pra você. Ela pode até soar generalizada, mas eu tenho certeza de que se levá-la em consideração será o melhor para você. Lá vai…
Se escrever estiver sendo fácil e/ou rápido pra você, muito provavelmente você não está escrevendo bons originais.
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Escrever bons originais é muito difícil. E quando o editor escuta frases como “Eu escrevi meu livro rapidinho” e “É um dom natural, as coisas simplesmente vêm pra mim”, ele já espera um original sem qualidade. E é batata!
Pense só no processo de revisão. Depois de se dedicar meses, anos para o rascunho, vem o processo de revisão, que é mais trabalhoso ainda. Ler, ler, ler, ler, ler o mesmo texto é um saco! Tem escritor que até pega ranço da história, começa a achar que está tudo chato – e está mesmo, pra ele, pois ninguém quer ler o mesmo texto quinze vezes, muito menos um texto seu. Só essa etapa é difícil pra caramba e leva um baita tempo.
Imagine só o processo toooooooooodo: preparação para ser um escritor – estudo: cursos, vídeos, textos, livros de autoajuda, network, conhecimento de mercado etc –, planejamento do livro – determinação de objetivos e estratégias, criação e análise de todos os elementos de um romance etc –, escrita do rascunho – execução de narrativa, voz do narrador, estilo, linguagem, ritmo da trama, construção de personagens, diálogos, produção textual, gramática básica etc –, revisões do rascunho, compartilhamento da primeira versão do original com leitores betas, análise de feedbacks, revisões na primeira versão do original…
Cara, me cansei só de pensar, e você deve ter cansado só de ler. E eu só resumi, juro! É muito mais difícil do que parece; cada tema mencionado ainda é destrinchado em outros temas, que são destrinchados em outros temas… – pense só em tudo que está envolvido em “determinação de objetivos e estratégias” ou “construção de personagens”. Como é que esse processo tão doloroso e penoso é fácil e rápido pra alguns escritores? Sério, se está fácil e/ou rápido, provavelmente você não está fazendo bem-feito.
E se você quiser insistir na ideia de continuar escrevendo livros rapidinho, na maior facilidade, pelo menos não saía falando isso por aí, porque o seu editor pode até responder um “Ah” ou “Entendi”, mas o que ele está pensando é que vai ter que reservar bastante tempo da agenda dele para o seu cronograma, porque a edição do seu original vai dar um trabalhão.
Bianca Gulim, nossa produtora editorial, apresenta sua visão sobre a incansável busca dos escritores pelo seu estilo
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O que é o estilo do escritor? Pergunta difícil de responder.
A primeira resposta que me ocorre é: a forma como o autor conta a história. Mas com essa resposta eu estaria dizendo que todo escritor tem estilo, afinal todo escritor conta uma história. E eu não acho que todo escritor tenha estilo.
Que tal chegarmos a essa resposta juntos?
Proponho dois exercícios. O primeiro é: pense nos últimos livros que você leu, aqueles que estão frescos na sua memória. O que você se lembra desses livros?
Se a resposta for só os fatos narrados, o que aconteceu naquela história, o escritor desse livro não deve ter estilo. Agora se você se lembrar não só dos fatos narrados, mas também da maneira como eles foram narrados, provavelmente esse escritor tem estilo.
Mais um exercício: pense no seu escritor favorito. Por que ele é o seu escritor favorito? Provavelmente sua resposta não está relacionada aos fatos narrados, e sim à maneira como ele o faz: ele confunde você, e o final é sempre surpreendente, diferente das suas teorias; ele vai direto ao ponto, não investe páginas e páginas em descrições; o texto dele é simples, ágil, com frases curtas e impactantes; os personagens dele são sempre críveis, você até reconhece amigos neles; narra em terceira pessoa, mas os narradores sempre carregam uma certa acidez, abusam do sarcasmo…
Está entendendo o meu ponto?
O estilo do escritor são as particularidades da sua escrita, pelas quais ele é lembrado, é reconhecido, são as marcas que ele deixa no texto. É o motivo pelo qual ele vale a pena ser lido; aqui entra o público-alvo: um estilo pode agradar uns e desagradar outros.
Nenhuma história é nova, é original. O fã de romance lê diversas vezes a “mesma história” — os mesmos conflitos, as mesmas saídas para estes, as mesmas motivações, os mesmos perfis de personagens —, assim como o de suspense, o de terror… O que muda é a forma como essa “mesma história” é contada. O estilo de um escritor é a forma como ele consegue trazer originalidade — porque a ideia, amigo, alguém já teve antes.
Clarice Lispector é conhecida pela prosa poética e filosófica, pela narrativa marcada pelo fluxo de consciência que chega a alcançar o monólogo interior, pela complexibilidade da estrutura, pela essência introspectiva, pela linguagem complexa, frases difíceis de compreender, por vezes desconexas, usando palavras que não se encaixam no contexto, algumas que nem existem, criadas por ela. Explorava o cotidiano, o ordinário, para criar histórias extremamente profundas. Personagens focados em si e em seus pensamentos.
Imagem: digulvação; Clarice Lispector e Stephen King
Stephen King, por sua vez, ao mesmo tempo que traz uma linguagem informal, coloquial, acessível, abusa de frases longas, com construções às vezes um pouco complexas. Suas descrições são extensas, detalhadas. Seu texto é cheio de metáforas profundas, analogias. Seus personagens são quase sempre marginalizados, em posição de inferioridade; extremamente verissímeis, apesar de normalmente terem características sobrenaturais. É comumente reconhecido pelo tipo de terror que causa repulsa.
Dificilmente um fã de Clarice não vá reconhecer um texto dela mesmo sem saber que é dela; o mesmo para King.
Há escritores, principalmente aqueles inexperientes, que apenas narram os fatos; não há particularidades em sua forma de contar histórias, seus textos são neutros. São escritores que ainda não encontraram seu estilo.
E encontrar o estilo não é tarefa fácil para a maioria, embora eu creia que aconteça naturalmente. É algo que vem com o tempo, com a experiência, por meio de testes, de tentativas. Muitas vezes, é a soma das particularidades dos autores que inspiram o escritor — e tudo bem, porque, sério, hoje nada é novo, nada é original, tudo já foi feito. Entendo que o que faz com que o escritor encontre seu estilo é a inconformidade.
O bom escritor, aquele que se destaca, que conquista seu espaço em um mercado tão competitivo, é aquele que não se conforma com um texto bem escrito. Ele até pode finalizar um primeiro original após estar apenas bem escrito, mas sabendo que no próximo ele irá além. E no outro também. E assim por diante. Lá pro seu quarto, quinto livro, talvez ele comece a se encontrar, e o leitor, a perceber seu estilo.
A literatura exige mais do que um texto claro, coeso, coerente; exige mais do que uma história sem furos, com começo, meio e fim. E se você, escritor de ficção, ainda se limita a isso, saiba que precisará ir além se quiser se destacar no ofício. E é persistir na busca desse além que, na minha opinião, fará com que você forme seu estilo.
E você, já encontrou o seu estilo ou ainda está procurando?
Nossa produtora editorial, Bianca Gulim, fala sobre as armadilhas presentes no caminho dos escritores que confiam apenas na escrita intuitiva
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Um dos erros mais comuns que vejo entre os escritores no começo de carreira são originais escritos de forma unicamente intuitiva. Ou seja, o escritor só vai jogando no papel tudo que lhe ocorre, sem estratégia, sem pensar muito nos seus objetivos com aquela obra, sem estudar o público-alvo, as técnicas literárias. E o resultado disso na massacrante maioria das vezes é um original sem qualidade.
Ah, Bianca, mas eu gosto desse processo livre. Eu nem consigo planejar um livro. As cenas vão vindo e preciso ir jogando no papel do jeito que vieram mesmo.
Olha, está tudo bem começar o processo de escrita de forma intuitiva. Você pode rascunhar mil cenas de forma intuitiva antes de qualquer outra coisa. Mas em algum momento você vai ter que parar para analisar essas cenas e tomar decisões depois de refletir muito.
Narrar em primeira ou terceira pessoa? Narrar no presente ou no passado? Um, dois ou mais narradores? Ritmo lento, acelerado ou meio-termo? Fugirá ou explorará clichês? Todos os personagens serão redondos, ou haverá planos também? Linguagem acessível ou rebuscada? Estrutura cronológica, ou com flashbacks, ou epistolar…? Vai trazer referências? Vai explorar uma, duas ou mais camadas da narrativa? Quais seus objetivos com a narrativa, com a linguagem, com o ritmo, com os personagens… com a obra, e quais técnicas vão o ajudar a alcançá-los?
Essas são só algumas das perguntas inevitáveis que ocorrem ao escritor ao produzir um original de qualidade. Se você conseguir as respostas antes de começar a rascunhar, vai economizar bastante tempo. Mas, se não conseguir, se é apenas durante a escrita que as ideias surgem para você, não há problema, mas, após rascunhar, você vai ter que parar e refletir sobre tudo isso, para depois colocar suas decisões em prática.
O que não pode acontecer é você escrever várias cenas de forma intuitiva, e fim, está pronto seu original. Não. O que está pronto é seu rascunho, que, após muitas edições de sua parte, se tornará um original.
O intuitivo é, sim, importante, mas é apenas uma pequena parcela do trabalho do escritor. Pense, reflita, planeje, trace seus objetivos com a obra e busque técnicas literárias para ajudá-lo a alcançá-los; teste, experimente, e se não der certo tente de outro jeito, e de novo, de novo. Não tenha pressa. Se puder, invista mais tempo planejando e traçando estratégias, seja antes ou depois do rascunho, do que executando. Uma ideia não tão boa bem executada tem potencial, mas uma ótima ideia mal executada não tem chance nenhuma.
E você, ainda escreve apenas de maneira intuitiva?
Nossa produtora editorial, Bianca Gulim, alerta sobre as escolhas em prol do escritor, e não da obra
Nada melhor do que se sentir confortável, não é? Mas nem sempre o conforto é algo bom.
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Escritor, confie no meu conselho: é essencial que você tome as decisões em relação à sua publicação pensando no que é melhor para o livro, e consequentemente para o leitor, e não no que é melhor para você; se conseguir conciliar os dois, ótimo, mas, senão, priorize o leitor, e não você.
O leitor — e o editor — percebe quando as decisões tomadas durante a produção do livro foram convenientes para o escritor, e isso o faz parecer um profissional amador, assim como sua obra.
Vou dar um exemplo muito comum para elucidar: livros narrados em primeira pessoa por dez personagens diferentes. Está errado? Não, mas o que motivou o escritor a fazer isso? Em 90% dos casos a resposta é que o escritor gosta de escrever em primeira pessoa, mas muitas cenas importantes não contam com a participação do protagonista, então ele decidiu narrar aquela cena do ponto de vista de um dos personagens presentes.
A chance de isso não dar certo é muito grande; até porque construir um narrador já é bem difícil, imagine dez. Afinal, se são dez personagens diferentes, serão dez narrações diferentes no que se refere à linguagem, estilo, fluxo de consciência, descrição, e assim por diante.
Mas vamos analisar o problema do escritor desse exemplo. Ele começou a escrever o livro em primeira pessoa porque é sua preferência, é como ele se sente confortável, mas aí, depois de 60 páginas, bum! O leitor precisa receber determinada informação, mas o protagonista não pode saber disso. E 40 páginas depois, de novo. E outra vez após mais 60. Escolher aleatoriamente outro personagem para narrar as cenas é a melhor decisão para o livro? Provavelmente não.
O que fazer nessa situação? A primeira coisa que eu faria seria repensar se a primeira pessoa é a melhor decisão para esse livro.
Ah, Bianca, mas pra mim escrever em terceira pessoa é muito difícil.
Ninguém falou que seria fácil, amigo. Encare esse desafio e cresça com ele. Mas supondo que você bata o pé e queira narrar em primeira pessoa, será que não há saídas mais interessantes para a obra?
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Você pode elencar as informações que precisam ser passadas ao leitor sem o conhecimento do narrador e estruturar o livro de forma estratégica. Por exemplo, dividir o livro em partes, e no início de cada parte você traz um trecho do diário de algum outro personagem, no qual você insere a informação; ou uma matéria de jornal. Ou, até, que tal criar um narrador terceiro cheio de personalidade, intrometido, que a cada determinada média de número de páginas vai aparecer e fazer uma contribuição divertida, ou sombria?
O escritor é livre para fazer o que quiser, para fugir do convencional, fazer algo nunca ou pouco feito antes. O importante é que isso seja feito de maneira estratégica, pensada, e que todo o livro seja produzido levando em consideração essa estratégia. Porque assim, mesmo que seja uma estratégia audaciosa, e mesmo que o leitor não goste, pelo menos funcionará, ficará claro o objetivo do escritor. Não dá pra encontrar soluções rápidas, convenientes para o autor, para resolver problemas complexos.
Poxa, Bianca, mas assim vai dar muito trabalho, né? Vou levar muito tempo pra escrever um livro se eu tiver que refletir sobre cada detalhe dele.
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Escrever um livro dá trabalho mesmo. Se escrever um original foi algo que você fez com muita facilidade, rapidinho, de duas uma: ou você é um gênio da literatura ou não fez um bom trabalho. Sinto ser a portadora da má notícia, mas a segunda opção é mais provável que a primeira.
Então, se você quer ser um escritor, prepare-se para ter muito trabalho no planejamento da obra, mais trabalho na escrita do rascunho, mais trabalho nas suas edições, mais trabalho no acompanhamento da produção editorial. E isso é só o começo, porque depois vem a divulgação, a distribuição, as vendas… Mas isso é assunto para outros artigos. O recado aqui é: faça uma escolha confortável apenas se ela realmente for a melhor decisão para o seu livro; se a melhor decisão para o seu livro for desconfortável para você, encare o desafio.
E você, anda tomando muitas decisões confortáveis?
Bianca Gulim, nossa produtora editorial, traz dicas simples para ajudar na construção de seus personagens
Os personagens são um dos pontos principais que fazem com que leitores se apeguem ao livro; isso porque, além de ele serem os fios condutores do enredo, o leitor se identifica com eles, se coloca em seus lugares, se vê nos conflitos em que são inseridos. Por isso, criar personagens verossímeis é essencial: seu leitor não vai se conectar a um personagem com uma personalidade que claramente não poderia existir na vida real.
Há muito a ser dito sobre a construção de personagens, e certamente não conseguirei abordar tudo em um artigo, mas aqui vai um infográfico que vai ajudar você com o básico sobre esse tema.
E aí, você já levava esses pontos em consideração na construção dos seus personagens? Me conte aqui nos comentários.
Em O EDITOR INDICA #2, nossa produtora editorial, Bianca Gulim, apresenta a Duologia À sombra da imortalidade, de Dylan Ricardo. Confira:
Dylan Ricardo é um dos meus escritores favoritos do nosso catálogo. Eu sei que, se o nome dele estiver na capa e o texto for prosa, vai funcionar pra mim. E o que mais me agrada em seus escritores é seu texto, sua produção textual. É de uma elegância invejável, e, como ele se dedica ao horror, ao terror, essa contradição entre o elegante e o sinistro traz um refinamento pra esse gênero que faz de Dylan um escritor singular.
Não são textos simples, logo aviso. Estou falando de um escritor com um vocabulário muito vasto, frases construídas a nível de detalhe; dá pra ver que cada palavra, cada pontuação não está ali por acaso. Não é um texto difícil de se ler, mas também não é fácil. Você não vai ler Dylan Ricardo em uma sentada só. Seus livros devem ser degustados aos poucos.
Na duologia À sombra da imortalidade, porém, senti que Dylan Ricardo trouxe um texto um pouco mais acessível, que não exige tanto do leitor como seus outros escritos.
À sombra da imortalidade IÀ sombra da imortalidade II
Mas, sem mais delongas, vamos ao enredo.
À sombra da imortalidade se passa na Londres de 1875, e a impressão que dá é que Dylan viveu essa cultura. Se você já viu filmes passados nessa época, vai perceber que a leitura o transporta pra esse cenário. Dylan com certeza acertou nas descrições, que não são curtas a ponto de deixar o cenário raso, mas também não são longas a ponto de se tornarem maçantes.
O protagonista é Jones Philips, um editor de livros que tem uma vida simples, até precisar editar o livro À sombra da imortalidade. O autor, Sacratus Lucian Fergelus, é um cara fora da curva, e ao ler sua descrição podemos sentir a sua presença — sério, não estou exagerando; é isso que um bom texto aliado a uma boa narrativa tem o poder de fazer. Eles logo se tornam inimigos, mas inimigos velados; o embate não é físico, é psicológico. Jones entende que Fergelus não é um humano, mas ele parece ser o único capaz de perceber isso. O maior problema é que ele não sabe que criatura é essa ou do que ela é capaz. Sabe, porém, que vai encontrar essas respostas no livro À sombra da imortalidade, que nada mais é do que a biografia do autor disfarçada de ficção.
Então Jones lê o livro, e nós, leitores, lemos junto com ele. Sim, nós temos um livro dentro do livro. Confesso que a proposta de histórias paralelas à história principal de um enredo não costuma me agradar, pois eu sempre me interesso muitíssimo mais pela história principal e fico irritada quando a história paralela pede minha atenção. Mas Dylan Ricardo conseguiu ir além: ao mesmo tempo que na história principal está rolando esse embate entre Jones e Fergelus, é na história paralela que nós vamos entendendo esse vilão, sabendo do que ele é capaz e chegando às respostas que tanto buscamos. E o bônus é que essa história paralela começa na Idade da pedra, pois Fergelus caminha pelas eras, e Dylan Ricardo dá uma aula de História ao trazer todo o contexto histórico de cada época, mencionando, inclusive, os grandes nomes e feitos da humanidade.
Durante o dia, Jones luta para fugir das armadilhas de Fergelus enquanto corpos mutilados surgem, e à noite lê, conhece seu inimigo, busca suas fraquezas, reunindo a munição necessária para enfrentar o mal de frente.
Imagem: Divulgação
Biografia: Dylan Ricardo nasceu em Recife, mas é um cidadão do mundo. Em constantes viagens, busca inspiração para suas poesias, nas quais descreve liricamente trajetórias existenciais abarrotadas de desânimo, decepções e sonhos destruídos. Seu interesse e sombria necessidade de investigar os insanos hábitos humanos o levaram a aprofundar-se não só em estudos da Filosofia e Psicologia, mas da própria literatura, o que lhe auxiliou bastante na descoberta do seu estilo, o qual revela sua personalidade insatisfeita, realista e questionadora. Escritor e poeta, é o autor dos livros Nas Brumas do Desalento, o poético No Zênite da Insanidade, Mil Poemas e Um Suicídio — a biografia de um homem sem esperança, Asas de Pedra — nos porões da decadência, Do Inferno, Estado Terminal, Contos Noturnos, Nos Lábios do Abismo, Murmúrio das Trevas e Lamentos na Escuridão.
Olha, se eu não consegui convencer você a ler este livro, dê um pulinho em nosso site e, na loja, busque À sombra da imortalidadee baixe a degustação com os primeiros capítulos. Se eu não o convenci, estou certa de que as primeiras páginas dessa duologia incrível vão.
Esta, sem dúvidas, é uma das maiores dificuldades dos escritores: escrever uma boa sinopse, texto fundamental para o processo de venda do livro. E essa não é uma tarefa fácil — há até cursos focados apenas nos textos que vendem o livro no mercado —, mas estamos aqui para dar aquela ajudinha: reunimos os principais pontos que você deve considerar ao escrever a sinopse do seu livro:
Tamanho do texto
Minha sugestão, e é o que praticamos aqui, na Coerência, é que você opte por uma sinopse curta: no máximo mil caracteres com espaços; se puder, até menos.
A maioria dos leitores não se interessa por sinopses longas, e é comum que até desistam da leitura ao se deparar com uma contracapa com muito texto. Há alguns leitores que não se importam, e até preferem textos maiores, que dizem mais sobre o livro? Há, e no caso do livro físico você pode usar a orelha para trazer um texto complementar à sinopse.
Quer estratégia melhor do que atingir os dois públicos, o que gosta de textos curtos por meio da contracapa e o que gosta de textos maiores com a contracapa somada à orelha?
Quais informações contar
É fundamental que você apresente os protagonistas e o conflito principal da trama, que costumam ser os fios condutores da obra; normalmente, é por meio das decisões do protagonista que os eventos vão se desenrolando na narrativa, e costuma ser o conflito principal que o motiva a tomar essas decisões. É também importante que você informe ao leitor em qual contexto o protagonista e o conflito estão inseridos.
Qual peso dar a cada um deles depende do gênero: em uma fantasia, dar destaque ao cenário, um universo novo, criado pelo autor, é essencial, assim como em uma distopia o contexto que levou a humanidade àquela situação, ou até o contexto social no qual os personagens se encontram, tem grande relevância.
O pulo do gato
Saber a medida certa de revelações é muito importante. É preciso revelar o necessário para despertar o interesse do leitor, mas não o bastante para que ele encontre respostas para as perguntas que se fez durante a leitura, porque é a vontade — ou até a necessidade — de encontrar essas respostas que o fará investir na leitura.
Palavras-chave e tom
Algumas palavras automaticamente despertam o interesse de determinado público-alvo, e normalmente o leitor nem percebe, mas elas influenciam sua decisão de compra. Leitores fãs de romances gostam de ler palavras como “amor”, “paixão”, assim como os de drama têm seu interesse despertado ao ler “superação”, “trágico”.
Outro ponto muito relevante é o tom do texto que apresentará o livro: ele deve refletir o tom da narrativa, o que está ligado ao gênero e, consequentemente, ao público-alvo. Uma comédia romântica precisa de um tom divertido, assim como um terror precisa de um tom sombrio. Lembre-se que a mesma mensagem pode ser contada de diversas formas diferentes, e acertar nessa forma é fundamental quando estamos falando de sinopses.
Esses são o que considero os pontos principais. E como quero ajudar você de verdade, vamos de um exemplo para deixar as coisas mais claras? Veja a sinopse de Uma mulher no escuro”, de Raphael Montes, publicada pela tradicionalíssima Companhia das letras:
Imagem: Companhia das Letras
“Victoria Bravo tinha quatro anos quando um homem invadiu sua casa e matou sua família a facadas, pichando seus rostos com tinta preta [contexto]. Única sobrevivente, ela agora é uma jovem solitária e tímida, com pesadelos frequentes e sérias dificuldades para se relacionar. Seu refúgio é ficar em casa e observar a vida alheia pelas janelas do apartamento onde mora [protagonista], na Lapa, Rio de Janeiro [cenário]. Mas o passado bate à sua porta, e ela não sabe mais em quem pode confiar. Obrigada a enfrentar sua própria tragédia, Victoria embarca em uma jornada de amadurecimento e descoberta que a levará a zonas obscuras, mas também revelará as possibilidades do amor [conflito]. Um psiquiatra, um amigo feito pela internet e um possível namorado — qual dos três homens está usando tudo o que sabe para aterrorizar a vida de Vic? E o que afinal ele quer com ela? [reforço de conflito]”
A sinopse de “Uma mulher no escuro” tem 822 caracteres, nos quais são apresentados protagonista, conflito, cenário e contexto. São reveladas as informações necessárias para despertar o interesse do público-alvo (leitores de suspense): protagonista com passado sombrio, o que a tornou uma pessoa com problemas, que certamente influenciarão suas ações durante o enredo; assassino voltando para buscar uma sobrevivente; assassino com modus operandi; coadjuvantes não confiáveis, os quais o leitor terá de investigar durante a leitura; bônus: um possível romance, mas não daqueles melosos, fofos. As palavras-chaves são aquelas que fazem o público-alvo salivar [aqui grifadas em negrito]. Para fechar com chave de outro, caso o leitor não tenha feito perguntas ao longo da leitura (duvido!), a sinopse entrega duas de bandeja.
Eu, sem dúvidas o público-alvo de Raphael Montes, ainda não li “Mulher no escuro”, mas já estou aqui me remoendo: quem matou os pais de Victoria e por quê? Que coisa bizarra é essa de pichar o rosto? É um fetiche, trata-se de um assassino sexual? É uma necessidade, pois a vítima conhece o assassino? É um capricho de um serial killer? Observar a vida alheia? Victoria é voyeur, ou é o fato de eu ser fã de romances hot que está me conduzindo pra esse lado? Algo peculiar há nessa história de observar os outros pela janela, senão essa informação não estaria na sinopse. Esse passado voltando é na forma do assassino dos pais, né? “Zonas obscuras”? Deve ser na própria mente dela… Psiquiatra, amigo ou namorado… qual dos três é o vilão?! Ou estão me enganando, e não é nenhum dos três? Deve ser o psiquiatra… O que será que essa pessoa sabe sobre Vic (nesta altura, já sou íntima da protagonista)? Ah, deve ter alguma coisa a ver com o fato de ela ficar bisbilhotando a vida dos outros pela janela!
Tá! Eu preciso ler “Uma mulher no escuro”! No mínimo, vai pra minha lista de desejados. Se você gosta de suspenses, deve estar na mesma situação que a minha. Esse é o poder de uma boa sinopse.
Correndo o risco de este artigo ficar grande demais, vamos a mais um exemplo, desta vez nosso — Rio de Sangue, de Alexsander Gonçalves —, de modo que poderemos comentar as decisões que foram tomadas na feitura do texto. E, como cada caso é um caso, vamos trabalhar um caso fora da curva, que costuma exigir mais do que casos comuns.
Imagem: Grupo Editorial Coerência
“Em uma noite de domingo, as redes sociais, rádios e jornais são tomados pela notícia de que um suposto grupo de criminosos está ceifando vidas brutalmente[contexto]. A princípio, a imprensa divulga o evento como um caso corriqueiro na violenta cidade do Rio de Janeiro [cenário], no entanto a matança vai ganhando maior proporção, até que já não se pode fazer mais nada: é tarde demais. A população carioca vai descobrir da forma mais assustadora possível que as ruas da grande metrópole continuarão banhadas em sangue, porque não se trata de um caso isolado, e sim de um vírus fatal, que se espalha rapidamente pela cidade maravilhosa [conflito].”
Do ponto de vista de análise, talvez a primeira coisa que chamou a sua atenção tenha sido o fato de os protagonistas não serem mencionados nessa sinopse. E, claro, há protagonistas nessa história. No entanto, pelo menos nesse primeiro volume da série, a verdadeira protagonista é a violência — o público-alvo é muito bem definido aqui; não é um livro para qualquer um. Nesse ponto da história, os protagonistas conseguem apenas sobreviver. E é por isso que a violência é o ponto alto dessa sinopse, o que exploramos por meio de palavras-chave e tom.
Outro ponto bem explorado nessa sinopse é o fato de revelarmos pouco, deixando o leitor cheio de perguntas. A casa caiu, e agora?!Que vírus é esse? O que faz com as pessoas? O que aconteceu com a população? Como o governo vai lidar com isso? O livro aborda essa questão política? Leia para descobrir.
Nesse caso, trata-se de um livro físico, então há ainda o texto de orelha, no qual trouxemos mais informações, inclusive sobre os protagonistas, para o leitor de terror que não se convenceu com a sinopse — é importante levar em consideração todos os aspectos da capa; se tivéssemos apenas a contracapa (e-book), talvez a estratégia fosse outra.
“Recém-chegado ao sudoeste do país para a comemoração de oito anos de casamento com seu parceiro, Henrique decide convidar os amigos mais próximos para um jantar em seu apartamento na Tijuca. Focado em seu compromisso, o rapaz não dá atenção à desordem ao seu redor, alheio ao fato de que um vírus contagioso está transformando as pessoas em assassinos irracionais sedentos por sangue, que dilaceram todo aquele que se colocar em seu caminho, independentemente de ser um conhecido ou não. Ao perceber a gravidade da situação, o comissário de voo entende que ele, seu companheiro e seus amigos precisam sair em busca de segurança. Agora, para se manterem vivos terão de enfrentar diversos obstáculos, o que se torna ainda mais difícil quando descobrem que os infectados não são seus únicos inimigos. Resta saber se a busca pela sobrevivência assomada à fome e ao cansaço permitirá que a humanidade de cada um deles seja conservada… ou não.”
Considerando as perguntas que os leitores se fizeram ao ler o texto de contracapa, algumas respostas foram encontradas na orelha, mas novas perguntas foram despertadas. A técnica se mantém: informe o necessário para despertar o interesse do leitor, para conduzi-lo a fazer perguntas, mas não o suficiente para que as respostas sejam encontradas. A análise desse segundo texto fica com você como exercício.
Espero que este post o ajude a escrever uma sinopse incrível para o seu livro. Me conte aqui nos comentários; aproveite para me dizer no que mais podemos ajudar por meios dos próximos artigos. Um abraço, e até a próxima.
ESCRITO POR
Bianca Gulim
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